domingo, 22 de março de 2009

Arte como profissão 2

Uma coisa interessante nessa vida de músico profissional é que quando as pessoas te levam a sério demais você começa a perceber que na verdade é aí que não há certeza alguma.

Vide verso.

Cinzeiro

É o gosto no ar
Dessa areia de cinzas
Bagaço de um maço
Acabado

A noite que passa
Sem pressa
Ressaca, cachaça
Garganta arregando

quinta-feira, 19 de março de 2009

ÓBVIO

Fosse tão ÓBVIO

Eu seria um masoquista esclarecido
Mas em se tratando de entrelinhas

[pausas expressivas indefinidas]

Viro espera
E amanheço sorrindo por consolação

Essa neblina de vontades latentes no espelho
Essas noites suadas em vão
Essa dormência quanto ao que vai sobre a mesa
A laranja e a sede
Ceder ao instável espaço impossável.

Patria minha
Ânsia áspera

sábado, 14 de março de 2009

Professor Júlio Marcondes

Essas breves linhas aqui talvez estivessem muito mais maduras hoje se eu tivesse prestado mais atenção às coisas que você falava.
A notícia da sua morte chegou no meio de uma terça-feira a noite amigdalítica e cansada, veio-me à cabeça uma aula que você deu sobre um romance do José de Alencar e seu primeiro "orgasmo quadral" na história da literatura, dei uma risada de canto de boca e, como que de repente caísse numa constatação, entendi que nunca mais ia poder ver uma aula sua.
Me sobraram alguns e-mails, frases desconexas que soam na minha cabeça de músico com gosto por literatura, o gosto por ler Leminski (seu conterrâneo[?] idolatrado), poucas tiradas sarcásticas, sutis e geniais que só professores memoráveis sabem fazer.
Tinha tanta coisa pra aprender de você "psor"... que começo a achar que sozinho não vai dar pra escutar nelson cavaquinho com o gosto certo, com tino artístico certo, com a ironia certa; tanta coisa pra ouvir sobre poesia concreta da sua boca e rir logo depois num entendimento bobo de moleque que acha que entende das coisas...
Foi sem dar tempo de tchau...
Valeu Julião, vai deixar lembrança!

domingo, 8 de março de 2009

Precisamente?

Passou do quando
Muito, muito longe
Minutava sem viés
Sem convés, cem marias
Cheias de graça
Noites de caça
Saco sem fundo

Mundo sem dono
Vai entre as pernas
Cacos de vidro
Ruas repletas, inteiras
Perversas
Ex-tintas
Suor frizando insônia

Fria falta de fio
Na meada

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Ela sim é de um amarelo forte.

O sorriso mais bonito do mundo vem de longe, mas não tão longe assim, de um lugar
à beira do resto cinza que tem nas calçadas paulistanas, onde existem crianças
em tempo integral, vagalumes enigmáticos que aparecem nos nossos sonhos cosmopolitas
às vezes e cores sem nome nenhum que uma pessoa comum possa dar.

Ela sim desliza fácil pelos arranha-céus.

Vê doce de leite no concreto frio, harmonia dodecafônica nos pombos, nos ônibus,
na multidão; extrai luz de um reflexo incógnito na janela e faz dela templo.

Ela sim entende do sol.

Não de radiação e gravitação, mas de como prender seus fios em cabelos
louros e disso então desaguar inteira em vida: Corpo, imagem, arte.


Ela sim enxerga mar em copos d'água.

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"A água me contou muitos segredos
Guardou os meus segredos
Refez os meus desenhos
Trouxe e levou meus medos"

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

...É sobretudo


Falta do que dizer
Paciência pra parar
Prosear com as paredes
Subjetivizar a própria pressa
Rotina
Circuito fechado

Resta a inquietude
Insone
Pré-desenvolvimento de um pré-assunto
E quando, depois de carnavais proféticos que também estão por vir
Há de bater na minha porta o inesperado
O mais-além
Natural e apaixonado

Qualquer dia desses.